07 outubro 2006

há ainda uma palavra perdida


Há ainda uma palavra perdida no cansaço de mais um dia,
no peso das tuas mãos,
no limite de uma praia vazia.
.
Do que escrevo e do que sou... nem eu sei para onde vou,
apenas um vagabundo de cada hora perdida,
na agonia prolongada de uma vontade desconhecida.
.
Do sangue quente onde bebo os erros do tempo,
acabo prisioneiro de um mar onde afinal nada se sabia.
E acorrentado à própria vida onde a raiva se sacia,
solto apenas um beijo na chama de um inevitável lamento.

22 setembro 2006

as pedras do caminho

Ainda trago o vazio das horas que ficaram por contar, o vazio das palavras que deixei sózinhas, ao abandono do silêncio.
No espaço branco do que ficou por dizer,
apenas resta a dúvida, de tudo o que não se veio a saber.
Trago afinal o vento e o mar
juntos, perdidos na penumbra do que ficou por chegar, suspensos nas mãos que acabaram por se desprender.
Derrotada a vontade, fica o desalento das noites sem fim, e na espera fútil de todas as manhãs, apenas a loucura que lentamente se desperta em mim.
Como é fria agora a noite junto ao mar…
…e como a recordo ainda quente.
E assim, disfarço todas as dores nos trilhos que não conheço, nas pedras que atiro para bem longe… para não lhes sentir o peso pelo caminho…

14 julho 2006

da tua ausência



Trago o corpo dorido,
exausto pelo peso da tua ausência.
Doem-me os dias de estar só em tanta gente,
violentado em intermináveis palavras.
Resta o meu silêncio perdido
guardado em todos os momentos de ti.

30 junho 2006

Sempre mais um dia...

Era eu a querer tudo o que não tinhas,
tu a perderes tudo o que eu conhecia,
era eu a deixar-te chegar,
e tu a ficar a saber que partias.

Nós a dor do fim que se sabia,
a dor de tudo o que se perdia.
Nós sem sabermos como seguir,
nós a querermos sempre mais um dia.

E éramos nós frutos do mesmo mar, silêncios de uma só palavra.
E eras tu a pedir para ficar e eu a dizer tudo o que não queria,
era eu contigo a fugir do fim e tu comigo longe de podermos amar.

E nós a querermos todos os dias...

16 junho 2006

Só...

Trago o tempo suspenso na espera das tuas mãos,
na demora dos teus lábios,
no reencontro do corpo ausente.
A espera revela-se esgotante,
para me deixar preso a esta solidão,
cada vez mais sufocante.
Sinto-me só no meio da multidão,
sinto a tua falta dentro de mim,
sinto-me só dentro de mim...

27 maio 2006

amo-te...







Amo-te...
E as minhas mãos estendem-se para ti,
como um mar que chega à praia
e nada mais tem para oferecer.

O segredo da paixão


O dia írrompe pela madrugada,
na claridade rosa de um crepúsculo.
Os sonhos são o mundo de cada um,
e tu és de um mundo só meu.
Das folhas caídas que foram já verdes
são os teus olhos recordados,
que o mar traz-me sempre de volta ao teu olhar.
O dia arrasta-se pela côr de um rio espelhado,
e o seu brilho confunde-me na força desta paixão.
E quando o sol desaparece no longínquo horizonte,
é a noite que nos vem abraçar,
para que seja ela a testemunha desta razão,
e o seu silêncio nos venha falar,
deixar segredos que as palavras não conhecem
e que só os olhos parecem compreender.

24 maio 2006

Leve

Leve,
o sabor dos frutos por amanhecer.
Leve,
a lágrima que entorna o rio vagaroso.
Leve,
a mão que a noite da vista faz perder.
Leve o caminho que marcamos pela manhã.
Leve o sorriso que floresce em cada palavra vã.

E tão leve se torna o sono
que não conseguimos sequer adormecer.


10 maio 2006

Neste muro branco

Neste muro branco
segredam-se histórias caladas na cal.
Recordam-se breves fragmentos
de um dia singular,
onde papoilas dançam ao vento
e uma criança tropeça no teu olhar.

Neste branco muro
vivem-se histórias pintadas na pedra.
Anseiam-se beijos quentes
que tardam em principiar,
onde as mãos se procuram lentas
na nudez inquieta do teu respirar.

E é neste muro de cal branca,
que se revivem histórias de cada luar,
são histórias minhas e tuas,
memórias de todos os que souberam amar.

04 abril 2006

desculpa


Era de paixão que sonhavas,
o corpo possuído
no silêncio de cada luar.

O fogo que em mim despertavas,
momento de culpa esquecido
na orla fresca do mar.

E a mão que apertavas,
era o Verão inteiro, perdido,
a pedir-te desculpa.