Amo-te...
E as minhas mãos estendem-se para ti,
como um mar que chega à praia
e nada mais tem para oferecer.
O dia írrompe pela madrugada,
na claridade rosa de um crepúsculo.
Os sonhos são o mundo de cada um,
e tu és de um mundo só meu.
Das folhas caídas que foram já verdes
são os teus olhos recordados,
que o mar traz-me sempre de volta ao teu olhar.
O dia arrasta-se pela côr de um rio espelhado,
e o seu brilho confunde-me na força desta paixão.
E quando o sol desaparece no longínquo horizonte,
é a noite que nos vem abraçar,
para que seja ela a testemunha desta razão,
e o seu silêncio nos venha falar,
deixar segredos que as palavras não conhecem
e que só os olhos parecem compreender.
Leve,
o sabor dos frutos por amanhecer.
Leve,
a lágrima que entorna o rio vagaroso.
Leve,
a mão que a noite da vista faz perder.
Leve o caminho que marcamos pela manhã.
Leve o sorriso que floresce em cada palavra vã.
E tão leve se torna o sono
que não conseguimos sequer adormecer.
Neste muro branco
segredam-se histórias caladas na cal.
Recordam-se breves fragmentos
de um dia singular,
onde papoilas dançam ao vento
e uma criança tropeça no teu olhar.
Neste branco muro
vivem-se histórias pintadas na pedra.
Anseiam-se beijos quentes
que tardam em principiar,
onde as mãos se procuram lentas
na nudez inquieta do teu respirar.
E é neste muro de cal branca,
que se revivem histórias de cada luar,
são histórias minhas e tuas,
memórias de todos os que souberam amar.
Era de paixão que sonhavas,
o corpo possuído
no silêncio de cada luar.
O fogo que em mim despertavas,
momento de culpa esquecido
na orla fresca do mar.
E a mão que apertavas,
era o Verão inteiro, perdido,
a pedir-te desculpa.
Emergiam palavras escondidas,
côres sem sentido,
em sombras de novas melodias.
Reapareciam fechados sorrisos,
silêncios já esquecidos,
para calar aves em desvario.
Erguiam-se velhos castelos,
ao entardecer de tempos idos.
Corrompiam-se beijos perdidos
no limite de caminhos paralelos.
E tu,
só tu
desaparecias sem parar.
Lentamente,
a pressa no silêncio.
Reclamar o mesmo caminho
e não ter como partir.
Onde queres chegar
se continuas sem viver?
Isolam-se as mãos,
percorrem os dias
em rios sem margens.
Comprometo-me na certeza
de cada beijo e de cada gesto
que ostentam a madrugada.
E assim me deixo ao abandono
de cada palavra tua,
e sinto-me corar
quando dizes que me amas.
Assisto à coroação da chuva
pela noite sem madrugada.
Perpetuo o silêncio no interior
da tua ausência,
amarrado à voz deste amar,
deste bater de asas,
aconchegado,
e tantas vezes sonhado,
pelas mãos que anseio ver chegar.
Da voz
que larguei nas tuas mãos,
perdi a côr e não sei mais
por quem esvoaçam as espigas.
Deixei que fossem
os teus olhos rasos de água,
os primeiros acordes da madrugada,
perdidos pela canção que te ouvi cantar,
para te dizer
que ainda não chegara a mim
a primeira vez.
Não sei o que fizeste daquela noite
onde os pássaros puderam voar,
ou da minha mesa
onde a chuva se veio a perder.
Amo-te... e um navio
írrompe cansado pela janela,
trazendo no corpo de cada marinheiro
a noticia do anoitecer.
E chego assim
ao limiar do teu peito, a esse mar
com cheiro a rosas
onde a minha mão anseia acordar.