Era eu a querer tudo o que não tinhas,
tu a perderes tudo o que eu conhecia,
era eu a deixar-te chegar,
e tu a ficar a saber que partias.
Nós a dor do fim que se sabia,
a dor de tudo o que se perdia.
Nós sem sabermos como seguir,
nós a querermos sempre mais um dia.
E éramos nós frutos do mesmo mar, silêncios de uma só palavra.
E eras tu a pedir para ficar e eu a dizer tudo o que não queria,
era eu contigo a fugir do fim e tu comigo longe de podermos amar.
E nós a querermos todos os dias...
Trago o tempo suspenso na espera das tuas mãos,
na demora dos teus lábios,
no reencontro do corpo ausente.
A espera revela-se esgotante,
para me deixar preso a esta solidão,
cada vez mais sufocante.
Sinto-me só no meio da multidão,
sinto a tua falta dentro de mim,
sinto-me só dentro de mim...
Amo-te...
E as minhas mãos estendem-se para ti,
como um mar que chega à praia
e nada mais tem para oferecer.
O dia írrompe pela madrugada,
na claridade rosa de um crepúsculo.
Os sonhos são o mundo de cada um,
e tu és de um mundo só meu.
Das folhas caídas que foram já verdes
são os teus olhos recordados,
que o mar traz-me sempre de volta ao teu olhar.
O dia arrasta-se pela côr de um rio espelhado,
e o seu brilho confunde-me na força desta paixão.
E quando o sol desaparece no longínquo horizonte,
é a noite que nos vem abraçar,
para que seja ela a testemunha desta razão,
e o seu silêncio nos venha falar,
deixar segredos que as palavras não conhecem
e que só os olhos parecem compreender.
Leve,
o sabor dos frutos por amanhecer.
Leve,
a lágrima que entorna o rio vagaroso.
Leve,
a mão que a noite da vista faz perder.
Leve o caminho que marcamos pela manhã.
Leve o sorriso que floresce em cada palavra vã.
E tão leve se torna o sono
que não conseguimos sequer adormecer.
Neste muro branco
segredam-se histórias caladas na cal.
Recordam-se breves fragmentos
de um dia singular,
onde papoilas dançam ao vento
e uma criança tropeça no teu olhar.
Neste branco muro
vivem-se histórias pintadas na pedra.
Anseiam-se beijos quentes
que tardam em principiar,
onde as mãos se procuram lentas
na nudez inquieta do teu respirar.
E é neste muro de cal branca,
que se revivem histórias de cada luar,
são histórias minhas e tuas,
memórias de todos os que souberam amar.
Era de paixão que sonhavas,
o corpo possuído
no silêncio de cada luar.
O fogo que em mim despertavas,
momento de culpa esquecido
na orla fresca do mar.
E a mão que apertavas,
era o Verão inteiro, perdido,
a pedir-te desculpa.
Emergiam palavras escondidas,
côres sem sentido,
em sombras de novas melodias.
Reapareciam fechados sorrisos,
silêncios já esquecidos,
para calar aves em desvario.
Erguiam-se velhos castelos,
ao entardecer de tempos idos.
Corrompiam-se beijos perdidos
no limite de caminhos paralelos.
E tu,
só tu
desaparecias sem parar.
Lentamente,
a pressa no silêncio.
Reclamar o mesmo caminho
e não ter como partir.
Onde queres chegar
se continuas sem viver?
Isolam-se as mãos,
percorrem os dias
em rios sem margens.
Comprometo-me na certeza
de cada beijo e de cada gesto
que ostentam a madrugada.
E assim me deixo ao abandono
de cada palavra tua,
e sinto-me corar
quando dizes que me amas.