Era de paixão que sonhavas,
o corpo possuído
no silêncio de cada luar.
O fogo que em mim despertavas,
momento de culpa esquecido
na orla fresca do mar.
E a mão que apertavas,
era o Verão inteiro, perdido,
a pedir-te desculpa.
Emergiam palavras escondidas,
côres sem sentido,
em sombras de novas melodias.
Reapareciam fechados sorrisos,
silêncios já esquecidos,
para calar aves em desvario.
Erguiam-se velhos castelos,
ao entardecer de tempos idos.
Corrompiam-se beijos perdidos
no limite de caminhos paralelos.
E tu,
só tu
desaparecias sem parar.
Lentamente,
a pressa no silêncio.
Reclamar o mesmo caminho
e não ter como partir.
Onde queres chegar
se continuas sem viver?
Isolam-se as mãos,
percorrem os dias
em rios sem margens.
Comprometo-me na certeza
de cada beijo e de cada gesto
que ostentam a madrugada.
E assim me deixo ao abandono
de cada palavra tua,
e sinto-me corar
quando dizes que me amas.
Assisto à coroação da chuva
pela noite sem madrugada.
Perpetuo o silêncio no interior
da tua ausência,
amarrado à voz deste amar,
deste bater de asas,
aconchegado,
e tantas vezes sonhado,
pelas mãos que anseio ver chegar.
Da voz
que larguei nas tuas mãos,
perdi a côr e não sei mais
por quem esvoaçam as espigas.
Deixei que fossem
os teus olhos rasos de água,
os primeiros acordes da madrugada,
perdidos pela canção que te ouvi cantar,
para te dizer
que ainda não chegara a mim
a primeira vez.
Não sei o que fizeste daquela noite
onde os pássaros puderam voar,
ou da minha mesa
onde a chuva se veio a perder.
Amo-te... e um navio
írrompe cansado pela janela,
trazendo no corpo de cada marinheiro
a noticia do anoitecer.
E chego assim
ao limiar do teu peito, a esse mar
com cheiro a rosas
onde a minha mão anseia acordar.
Os lábios procuram-se,
ansiosos,
como singelos rebentos singrando
pela madrugada,
até que o sangue venha inundar
a pele em flor,
e corra espesso pelas curvas da chegada.
Provocas-me os dedos
na volúpia da tempestade, sonham
pelos teus ombros vazios,
desnudados.
E as mãos, as minhas, possuem
redes de linho, procurando
embalar as aves na orla
dos teus seios lassos.
E na humidade de um beijo,
cresce em mim,
um cavalo de fogo, desperto
pelo contacto breve
das tuas ancas perfumadas,
e sinto-lhe o turpôr,
alucinante,
como se o meu corpo
fosse um exército cansado,
desejando a paz que no teu corpo é furôr.
Gota a gota
o inverno mostra-se pelas ruas
pelos becos da realidade nua.
Gota a gota
as lágrimas teimam em desaguar
pela saudade do teu olhar.
Uma gota
outra gota,
e neste dia de janeiro
sou de um sonho teu,
onde desabrocham rosas
que de amarelo se deixaram pintar,
e onde uma criança brinca,
embalada pelas ondas do mar.
E gota a gota,
uma atrás da outra,
apenas por te amar
deixo a solidão entrar.
É de azul que o mar solta o seu canto,
atormentado em azul celeste
pelo testemunho breve
da queda de um anjo.
Foi naquela tarde,
os teus olhos perderam côr
e lágrimas verdes
correram livres
pelo teu rosto infantil.
Em beijos entrelaçados,
exaltámos juras de eterno amor,
tu de rosas te cobriste,
e eu, estarrecido
no teu corpo perfumado
me encontrei perdido.
De cabelos soltos ao vento,
senti-te partir
quando me pegaste na mão
em silêncio,
num sorriso primaveril.
Agora,
os dias são apenas
tristes em desoladas marés,
de alguem que não soube ficar.
Agora,
apenas o mar se exalta
pelo azul que se tornou verde
no meu olhar.
Perpetuam-se as imagens
largadas pelo vento
e já não sei se és rio ou flôr ou canção ou apenas relento,
eu parto com a maré.